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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Louco, eu???? Segunda Parte

Desolado, Dr. Freud abre a porta e dá passagem ao sujeito. "Este era o seu grande mal, não conseguir rejeitar atendimento a paciente nenhum, embora não estivesse muito interessado, no momento, em casos como o de Napoleão", pensou. "Cada caso, no entanto, é diferente do outro. Que oportunidades de estudo me trará este encontro? Não posso perder a chance de lidar com delírios de grandeza tão expressivos como esses!". "Entendo de histerias, fobias, compulsões, mas não de delírios de tal natureza. Não seria uma chance única?".
Napoleão entra correndo e se instala no divã do Doutor, feliz como uma criança:
- Eu sabia que o senhor não rejeitaria ajuda a um pobre necessitado como eu, Doutor!
- Vamos lá, Napoleão, o que te aflige a uma hora dessas?
-Ah, Doutor, o de sempre, as minhas dores abdominais. Eu já lhe contei sobre elas? Iniciaram-se após uma batalha feroz da qual tive que me retirar na minha vida anterior. Os inimigos eram em número superior ao nosso, então tivemos que bater em retirada, em um movimento estratégico, mas algo me atingiu, talvez uma bala perdida. Desde então venho sofrendo destas dores, mesmo depois de minha morte.
-Morte? Que morte se posso lhe ver bem aqui em minha frente?
As palavras do Doutor bastaram para deixar Napoleão exaltado. "Como assim? Esse não é o grande Doutor Freud, entendido das doenças da cabeça e do coração?", pensou Napoleão. "Será que vou ter que explicar tudo a esse senhor?".
- Claro que me vês, Doutor, apesar de eu ser um fantasma. Todos os apaixonados podem enxergar a alma dos apaixonados que já se foram, e que eu saiba o senhor nutre um grande amor por sua esposa, como eu nutria por minha querida Josefina. Isso sem contar a paixão que o senhor nutre pelo trabalho! Afinal de contas, se assim não fosse, teria me atendido a esta hora? Convenhamos, Doutor! Vou ter que lhe explicar tudo?
Doutor Freud sentiu seus cabelos arrepiarem. Sabia aonde aquela conversa iria chegar. Quando levantava a voz desse jeito, Napoleão encontrava-se a um passo da explosão. Mas algo distraiu o Doutor. Seu discurso tinha algo novo: "como Napoleão sabe de minha esposa, de meu amor? Será que fica a me espionar, a me seguir pelas ruas enquanto passeio com Martha? Só pode ser essa a razão de seu conhecimento a respeito de minha vida íntima!". Continuou dizendo:
- Não, claro que não, Napoleão. Eu estava apenas lhe testando, averiguando como está a sua atenção! Faz parte, sabe, do processo da entrevista...Você me dá uns minutos? Quando você chegou eu estava com a água fervendo no fogão e...
-Claro, claro, cuide de sua água, mas não demore, por favor. Estou ansioso para lhe contar dos meus problemas!
Doutor Freud sentiu suas pernas falharem enquanto se dirigia ao interior da casa. "Onde fui amarrar meu burro, meu Deus! Eu pensei em Deus? Eu, um psicanalista cético, falando de Deus? Ai, ai, ai, ai,ai! Onde isso vai parar? Bem que mamãe dizia para eu ser médico de crianças, porque iria me incomodar menos, mas não dei ouvidos...É isso que dá não ouvir a voz experiente dos mais velhos! Agora estou aqui, atendendo a um louco que acha que é Napoleão, mas Napoleão morto ainda por cima!". Com voz suave, para não deixar transparecer o medo que sentia, Dr. Freud pede à esposa Martha que acorde Anna, filha do casal. Achava que Anna, psicanalista como ele, saberia auxiliá-lo se precisasse conter Napoleão em mais um de seus ataques de fúria. Em sua última visita, por pouco que não se foi ao chão a porcelana inglesa de Martha, aquela que guardava com tanto zelo. "Nunca se sabe o que Napoleão irá fazer. É melhor prevenir do que remediar", argumentou o Doutor, falando com seus botões.
Voltando ao consultório, Dr. Freud põe-se novamente a escutar:
- Pois continuemos...
- Como o senhor demorou! Bom, eu estava dizendo que algo me feriu nos momentos finais da minha última existência, e desde então permaneço com esta dor. E olha que essa existência já acabou há muito tempo! Desde então venho vagando no mundo, em busca de algo que me alivie a dor. O senhor lembra de como foi sua última vida?
- Não, não tenho esse privilégio, disse o Doutor, engasgando-se com a própria saliva.
- Ah, a minha foi maravilhosa, cheia de glórias, tal como a sua atualmente.Tive um grande amor, Josefina, como o senhor já sabe. As vezes acho que essa dor é fruto dos arrepios de amor que sentia por ela...Na minha última batalha, aquela na qual morri, eu me preparava para largar a vida de guerreiro para ficar ao lado dela, mas Deus me levou para essa vida errante antes que eu pudesse realizar meu intento. O senhor conhece Deus?
O Doutor estremece, pensa que "quando chega em Deus...A coisa fica feia! Nesse ponto sempre aparecem os problemas. Napoleão começa a encenar suas batalhas, corre, pula, grita e...zapt! Quebra algo! É melhor ficar atento, tentar não despertar suas paixões..."
- Deus? Sim, como não...Estive com ele ontem mesmo!
- O senhor está rindo de mim? Pois eu, guerreiro afamado, nunca tive esse prazer...Quando o senhor estiver com ele novamente, mande lembranças. Não vá esquecer! Mas também faça-me o favor de dizer-lhe que achei de mal gosto ter tirado a vida de um herói como eu sem ao menos ter dado-me a chance de despedir-me da graciosa Josefina! Já lhe contei como foi a batalha, como guerreava pensando nela?
"E agora, Freud! Pensa rápido! Se eu disser que não, ele vai contar a batalha, mas se disser que sim, o que virá depois? Na dúvida, digo que sim. É uma mentirinha, mas quem não mente de vez em quando? Ai, se não tivesse descoberto o superego, não me importaria,mas a culpa irá me matar depois! Ai, ai, ai! O que faço, o que faço...". Como não há outro jeito, responde:
- Si...sim...Já tive oportunidade de ouvir seu relato...
-Então vou contar-lhe de novo para que entenda o meu sofrimento. Era madrugada e estávamos em uma região pantanosa, o céu escuro,ameaçador, prometia chuva. Estávamos escondidos atrás de vegetação espessa. A noite era como breu, não enxergávamos nada. E eu só pensava em Josefina...Estava tudo muito quieto, e isso não era bom sinal! Ah, não era mesmo! Quando o silêncio faz-se ouvir, pode-se ter certeza: o inimigo está a espreita!
Nesse momento, Napoleão levanta de um salto do divã:
- O senhor está aí, Doutor?
Freud entende que seu silêncio tornava-se ameaçador para aquele pobre louco:
-Sim, estou te ouvindo, não quero interromper teu relato.
- Então está bem...Ouve-se um tiro, então, de canhão. É o sinal: o  inimigo declarara o início da batalha. Ouço o tropel dos cavalos: pocotó, pocotó, pocotó, e seus relinchos também. As espadas saem de suas bainhas, todos os homens atentos.
"Oh, não, as espadas não! O que irá ao chão dessa vez? É melhor que o tire de dentro de minha casa, senão..."
- Eu também tiro minha espada e avanço em direção ao inimigo. Vapt, mato um, vapt, mato dois, e crash...
-Crash? Pergunta o Doutor, estranhando.
Uma escultura jazia no chão, espatifada em mil pedaços. O Doutor começa a chorar e a amaldiçoar o momento em que se tornou médico. "Porque justo a esfinge foi ao chão? Porque? Era a peça que mais amava! Tenho que evitar um estrago maior e...".
Não houve tempo. Infelizmente o pensamento foi tardio. Napoleão deleitava-se decapitando estatuetas, com seu riso débil e o suor escorrendo-lhe pelas faces. Sons de pés e espadas se ouviam naquela casa. Quem passasse na rua imaginaria ouvir uma batalha sangrenta, mas era apenas Napoleão. Anna, a filha do Doutor, apenas teve tempo de retirar das mãos do próprio pai a espada que arrancara do louco. O pobre coitado, por sua vez, fugira assustado com a fúria de Freud.
A história acaba aqui.  Doutor Freud não aguentou o sofrimento pela "morte horrenda" de sua coleção e enlouqueceu. Viveu o resto de seus dias no manicômio local, gritando: "não, a esfinge não!". Quanto a Napoleão? Bem, este continuou vivendo sua vida de alma penada e enlouquecendo psicanalistas desavisados.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Louco, eu?????????



Escrevi o conto abaixo há muitos anos, na faculdade ainda. Encontrei o original guardado entre minhas coisas. Achei bonitinho, dei algumas risadas, então resolvi reproduzi-lo aqui, com pequenas modificações. Divido-o em partes, para não cansar os leitores. Boa leitura!

Iniciava-se o ano de 1900. Bonita época aquela! Apesar do tempo frio, todos saíam as ruas para brindar a entrada do novo ano e do novo século. Em Viena, as ruas tomavam-se de pessoas vindas de todos os cantos da Áustria, e o som de canções de felicidade chegavam aos ouvidos do Doutor. Ele odiava a Áustria, odiava os austríacos e tudo que se relacionasse com o país onde vivia. Pelo menos era o que dizia, embora os amigos desconfiassem que esta era uma das tantas manias do Doutor: reclamar de Viena. Acabavam por não ouvir suas lamúrias diárias. Haviam se acostumado com a cantilena. Não importava. No fundo, achavam seus incontáveis amigos, seu coração derretia-se pela bela pátria de Johann e Richard Strauss, de Mozart, Beethoven e Schubert. E o que falar do Danúbio Azul? Quem, naquele tempo, era capaz de dizer que não o amava?

Pois o Doutor estava lá, naquela noite em Viena, espiando pela janela e divagando a respeito do que fora sua vida até aquele momento, no que a tinha empregado e se valera o esforço despendido. Pensava em seus pacientes, casos difíceis que lhe exigiram muitas e muitas horas de estudos. Passara a dormir pouco a cada noite, porque os enigmas que a vida  lhe impunha exigiam solução. Os leitores que o perdoem: ele não era íntimo desses momentos de melancolia e não gostava de se sentir "fraco", mas as festas, a saudação ao novo ano, faziam com que repensasse a vida.

Já passava muito da meia-noite e, sempre solícita, sua querida Martha, a esposa amada, oferece-lhe um prato de sopa quente, para que não tivesse pesadelos nas poucas horas em que descansaria o corpo. Doutor aceita e se perde em pensamentos enquanto sorve com gosto o caldo quente: "como é que um dia puderam pensar que mantive relacionamento amoroso com minha cunhada, irmã de Martha? Eu, um homem tão sério, tão apaixonado? Nunca dei motivos para o falatório! Certo é que Martha já não possui o frescor da juventude, mas onde encontrar companheira melhor, mais compreensiva e mais atenciosa? Em sua irmã que não haveria de ser!"

No outro lado da cidade, um solitário vagava por entre a multidão. Não via ninguém, não ouvia nada, mas todos o notavam pelo figurino exótico. Levava a mão direita pousada na região abdominal, pensando que aquela úlcera iria levá-lo à sepultura. "Como dói!", exclamava o homem. "Devo procurar o Doutor o mais breve possível", elocubrava, "e existiria momento melhor que este? O Doutor é homem ranzinza, está ficando velho, não sabe aproveitar o que a vida ainda lhe oferece. Ele é avesso à festas, demonstrações de felicidade como as dessa noite. Por certo estará em casa! É tarde, bem o sei, mas o Doutor é meu amigo. Certamente não se importará de receber uma visita, mesmo tendo em vista o adiantado da hora. Obviamente poderá dispor de toda sua atenção no meu caso, e tenho fé que sairei de lá curado".

Momento depois a campainha toca na casa do Doutor, mas ele não se mexe para atender à porta. Estava concentrado em seus escritos, sorvendo com prazer a fumaça do cachimbo. Sabia que fumar não era o hábito mais saudável de se cultivar, mas tinha prazer com isso. E, oras, não era a isso que vinha dedicando seus dias, ao princípio do prazer? Os pensamentos corriam livre, até que Doutor foi chamado à realidade. "Sim", pensou, "há alguém, certamente um infeliz, batendo em minha porta. Não é imaginação de uma mente cansada". "Deve ser um bêbado qualquer, que se perdeu de seu caminho e foi pedir ajuda na primeira porta em que conseguiu tocar a sineta". Lentamente o Doutor levantou-se da poltrona antiga, surrada pelo uso, e dirigiu-se até a janela para dar uma espiada. Ao passar por sua coleção de estatuetas, sentiu uma pontada de orgulho: "certamente ninguém se interessa tanto por arqueologia como eu e certamente ninguém tem tantas peças encontradas em escavações egípcias!". Aquela coleção era o orgulho do homem de compleição pequena, barba branca muito bem aparada. Através dela, olhando para as peças cuidadosamente arrumadas em sua mesa de estudos, o Doutor viajava para tempos muito distantes, pensava em civilizações antigas e em suas dificuldades diárias. Pensava nos primórdios das ciências, nos percalços dos pensadores gregos, romanos, egípcios e assim recuperava o ânimo, debilitado pela labuta diária. "Propor uma nova forma de conhecimento era tarefa sobre-humana! Teria ele condições de ir até o fim dessa empreitada?", pensava. Por entre as frestas da cortina, então, o viu.

Era Napoleão, conhecido cidadão vienense que perdera o juízo após a morte da esposa, tomada de chagas pelo corpo. Alguns disseram que era "a peste", mas ninguém se atreveu a precisar. Médicos, curandeiros, charlatões de todas as espécies tinham tentado acudir a moça de saúde frágil, mas todos os esforços restaram inexitosos. "Oh não, Napoleão não! A esta hora da noite? Porque ele insiste em visitar-me para contar suas desventuras gástricas? Por certo pode ser lido na placa na entrada da casa: Dr Sigmund Freud, Psicanalista!"

Continua amanhã! Juro que não vou massacrar ninguém: será a última parte!


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